Eram quatro da manhã, e nenhum som se ouvia além do ritmo descompassado daquela respiração chorosa. Sentada, no escuro, ela deixava as lágrimas caírem pelo rosto. Ainda não raciocinava direito, era só aquele abismo no peito. As coisas iam bem até que ele decidiu que não haveria mais história para eles. Talvez há muito as coisas não andassem bem, mas os olhos brilhantes de afeto que ela tinha, não a deixavam ver os pequenos incômodos que se acumulavam na alma dele. E ele partiu. Aquele "eu te amo, mas vou te deixar" era um paradoxo cruel e sem nexo. Ainda com os olhos úmidos veio o sono, mas não a paz.
(...)
Mais tarde ela veria, ainda muitas e muitas vezes, que "paz" não é uma tradução exata de amor. Aliás, para preservar sua sanidade, ela aprendeu a não buscar tal tradução. Valorizaria cada gesto, cada telefonema, cada pequena renúncia do outro. Mas levaria a eterna desconfiança das declarações que ouviria. Palavras são manipuláveis, concluiu. Mas ela, não mais.

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